segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Técnica de enfermagem de 24 anos que passou cinco dias acorrentada em uma casa em Goiás decide falar e alerta mulheres: “No primeiro sinal, sai fora”

Vítima detalha os cinco dias em cativeiro e alerta sobre sinais de violência; agressor teve prisão preventiva decretada pela Justiça




Emiliane Tamara Nunes Carvalho relata em entrevista o cárcere privado e as violências sofridas. Foto: Phillipe Mendes especial CB/DA Press

Técnica de enfermagem mantida em cárcere privado por cinco dias em Águas Lindas de Goiás decidiu contar publicamente o que viveu. Emiliane Tamara Nunes Carvalho, 24 anos, foi resgatada na sexta-feira (21) por policiais militares do Entorno Oeste e deu entrevista ao  ainda com dores e tonturas. A mensagem que quis deixar foi direta: “Não aceite o inegociável. No primeiro sinal, sai fora. Porque eu tive vários sinais.”

Armadilha no estabelecimento do ex

Emiliane havia desaparecido em 17 de agosto após sair de casa para um depósito e uma consulta em clínica de estética. Antes, combinara encontrar o ex-companheiro, pai de seus dois filhos, para tratar de uma audiência de pensão alimentícia prevista para o dia seguinte. O encontro aconteceu na distribuidora que ele administrava. Segundo ela, a conversa sobre as crianças nunca aconteceu: Ailton Rodrigues de Souza só queria reatar o relacionamento. Os dois foram para os fundos do local, onde o ambiente já estava preparado. “Infelizmente era uma armadilha, lá já estava com tudo preparado, eu não tinha percebido”, contou.

Ela afirma ter recusado qualquer aproximação e que, em seguida, recebeu uma substância química que a deixou sem forças. “Eu estava consciente, eu ouvia tudo, mas eu não tinha mais força para debater”, relatou. Segundo seu relato, também sofreu violência sexual,

Cinco dias presa sem janela e sem relógio

Do estabelecimento, Emiliane foi levada a um imóvel no bairro América III, onde ficou acorrentada. As mãos eram soltas apenas para que ela pudesse comer, o que não acontecia em todas as refeições. Sem janela e sem relógio, perdeu a noção do tempo. “Eu não sei se é de manhã, se é de tarde, se é de noite, eu não tinha noção de nada disso”, disse.

Sinais de alerta em relacionamentos abusivos

A vítima relatou comportamentos que antecederam o crime e servem de aviso

⚠️ Agressividade latente

Reações desproporcionais e explosivas que surgem logo no início da convivência, mesmo em situações simples.

🚫 Isolamento social

Tentativas de controlar amizades e afastar a mulher de seu círculo social ou colegas de trabalho.

📍 Monitoramento de rotina

Interferência em horários e locais frequentados, como forçar a mudança de uma academia ou curso.

🗣️ Falsas promessas

Uso de discursos sobre mudança de comportamento e reconstrução familiar para atrair a vítima para emboscadas.

Antes de deixar o local pela última vez, o ex-companheiro teria proposto um acordo: “Nós podemos fazer um acordo, ou nós dois morremos aqui juntos, ou eu te passo todos os bens que nós temos.” Ele também pediu que ela escrevesse uma carta endereçada à própria mãe.

Os policiais chegaram ao imóvel após monitorar os deslocamentos do suspeito. Encontraram Emiliane algemada, com cordas, uma corrente de ferro e uma máscara no rosto. Ailton Rodrigues de Souza foi preso em flagrante por sequestro, estupro e cárcere privado. Em audiência de custódia no sábado (22), na 2ª Vara Criminal da Comarca de Ceres, o juiz Cristian Assis converteu a prisão em preventiva a pedido do Ministério Público de Goiás, apontando “ameaças reiteradas, constrangimento físico e restrição da liberdade” da vítima.

Emiliane Tamara Nunes Carvalho, 24 anos, foi resgatada na sexta-feira (21) por policiais militares do Entorno Oeste. Foto: Reprodução / Redes sociais
A defesa pediu liberdade provisória com medidas cautelares, mas o pedido foi negado. Ailton disse ser colecionador, atirador e caçador (CAC) e afirmou fazer uso de calmantes por “crises nervosas”. Ele permanece preso e o caso segue sob apuração da Polícia Civil de Goiás.

Sinais ignorados por dependência emocional

Separada desde dezembro de 2025, Emiliane conta que o comportamento explosivo do ex existia desde o início da relação, em 2020. Um dos episódios mais marcantes foi quando ele chegou a uma comemoração que ela havia organizado com colegas e destruiu o apartamento. Com o tempo, passou a controlar amizades, horários e até a academia onde ela treinava. “Ele sempre foi muito explosivo. Eu acho que qualquer pessoa que você perguntasse sobre ele diria isso”, afirmou.

Para ela, a pouca idade explica por que os alertas não foram percebidos. “Não sei se era amor, se era dependência emocional, porque eu casei com ele com 18 anos. O amor é cego, a gente não vê”, refletiu.

Já com alta hospitalar, Emiliane disse sentir dores intensas na boca e afirmou que os ferimentos visíveis são apenas parte do que sofreu. Antes da entrevista, havia publicado vídeos nas redes sociais mostrando lesões que, segundo ela, foram provocadas por ácido durante o cativeiro. Ela admite temer represálias e acredita que o ex não agiu sozinho, embora não queira acusar ninguém sem provas. Ainda assim, não se arrependeu de falar.

“Se toda moça que for estuprada ou sequestrada se calar, isso sempre vai ficar acontecendo. Alguém tem que ter coragem de ir lá e se expor”, disse. Sobre o futuro, foi breve: “Eu acredito que eu ainda vou sofrer muito com isso, mas eu vou passar dessa barreira.”

Onde pedir ajuda

  • Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher, gratuita e disponível 24 horas em todo o país

  • Ligue 190 – Polícia Militar, para emergências